sábado, 11 de maio de 2019

A Pedra





Era uma vez uma fada da floresta que sonhava tornar-se uma Fada Madrinha. Em seus sonhos, ser uma Fada Madrinha é a melhor coisa que lhe poderia acontecer. Ela poderia ter uma afilhada, alguém que ela poderia abençoar e encher de alegrias. E toda a alegria que ela depositasse em sua afilhada a encheria de amor. Toda iluminação naquela vida retornaria para ela e a faria mais feliz ainda. Por um momento, alguma coisa lhe pareceu errada nesta idéia, mas logo ela afastou estes pensamentos sinistros, o que poderia haver de errado em amar outro ser e enchê-lo de alegrias, presentes e bençãos? 

Assim, a pequena Fada da Floresta afastou este pensamento e continuou sonhando com o dia que se tornaria madrinha. Os anos se passaram e uma Camponesa que colhia frutos na floresta encontrou a Fada, aquele pequeno ser com olhos arregalados e escuros, um queixo triangular, cabelos pretos e asas enormes de borboleta e ansiosa para alguém que lhe desse significado para a sua vida. 

 A Camponesa confessou a pequena fada que estava grávida e que ficaria muito feliz se esta aceitasse ser madrinha de sua criança. E a Pequena Fada ficou jubilada, radiante e aceitou o pedido. Finalmente, não seria apenas um ser mágico da floresta, ela seria um ser mágico com um objetivo, com uma meta, uma missão, finalmente teria alguém para amar e para lhe agradecer, ops, reconhecer toda a sua bondade. 

 Os primeiros anos foram fáceis e felizes, a pequena bebê de olhos claros e bochechas rechonchudas foi nomeada Pietra. Ao nascer, a Fada Madrinha lhe deu um lindo vestidinho azul com muitas flores da floresta estampadas. A Camponesa agradeceu, mas pediu que fosse acrescentado um grande e belo laço no vestido, no que foi prontamente atendido pela madrinha debutante.

 No dia do primeiro ano da pequena Pietra, a Fada Madrinha trouxe um delicioso bolo de mel para sua afilhada, a Camponesa pediu que lhe fosse acrescentado uma cobertura de calda de laranja, no que foi prontamente atendida. 

 E assim, o tempo passou, como costuma acontecer: os dias se arrastavam lentamente, cheios de afazeres e obrigações e os anos corriam rapidamente em um piscar de olhos. Pietra já vivera 14 primaveras e em breve se tornaria uma moça de 15 anos. Sua Fada Madrinha trabalhou arduamente para lhe preparar uma boa festa. 

Mágica Boa. como todas as coisas da vida, exige esforço, dedicação e muita energia. Mágica Boa só parece acontecer em um piscar de olhos para aqueles que não estão prestando atenção de verdade. Para aqueles que ficam sempre deslumbrados com o destino final, mas não prestaram atenção aos percalços que os peregrinos encontraram em seu caminho.  

Semanas antes do grande dia, a Fada Madrinha conversou com sua afilhada para trocar ideias sobre o evento sonhado. Pietra praticamente não gostou de nada do que lhe foi oferecido, exigiu uma festa maior, com mais músicos, mais comida e mais convidados. E assim foi feito. 

Aos 16 anos, Pietra pediu um namorado para sua Fada Madrinha. A Fada Madrinha havia lhe preparado um bom rapaz, honesto, trabalhador, apaixonado e capaz de fazê-la feliz. Pietra não aceitou, tinha que ser nobre, bonito, muito rico e muito obediente. E assim foi feito. 

 Aos 17 anos, seu nobre pretendente começou a construir uma bela casa para que vivessem no futuro. Pietra pediu a intervenção de sua Fada Madrinha, não queria uma casa, queria um grande castelo com muitos cômodos, com móveis luxuosos e uma criadagem enorme. E assim foi feito. 

Aos 18 anos, Pietra ficou noiva do seu pretendente, mas pediu que sua Fada Madrinha providenciasse um anel maior e com mais diamantes para celebrar aquela data. E assim foi feito. 

Aos 19 anos, a Fada Madrinha não estava mais feliz, Os últimos anos tinham sido difíceis, tinha que viver em prol dos desejos de sua afilhada, sua floresta estava cada vez mais descuidada e todo seu poder e mágica era voltado a coisas mundanas, lembrava-se vagamente da alegria que era viver em harmonia com as criaturas e entes que habitavam seu lar e de fazer pequenos atos de bondade que traziam grande alegria para os seres da floresta, sentimento este que ela não dava muita atenção antigamente, mas que estranhamente, estava lhe fazendo falta. 

Pietra veio lhe procurar com seus planos grandiosos para o casamento que finalmente se aproximava, a Fada Madrinha respirou fundo e finalmente entendeu tudo o que estava acontecendo, o que tinha que ser feito e dito: 

 -Menina dos Infernos, Mimada, Ingrata e Sem Limites. Cansei-me de você e deste seu Poço Sem Fundo e Insaciável de Desejos. Vá a Merda!!! 

 Então, transformou sua afilhada em uma Pedra. Sentiu a leveza de finalmente ser livre pela primeira vez na vida, não era mais escrava do sonho de ser Fada Madrinha e não era mais escrava dos desejos de sua protegida e foi ser feliz para sempre, não o sempre das estórias infantis, mas o Sempre que lhe fosse possível. .

Um comentário:

Leandro Galaverna - Acupuntura disse...

Adorei o "vai a merda ". Acho que precisamos dizer isso mais vezes