Esta carta recebi do meu amigo André no dia 14 de março de 2020 - via whatsapp - ele tinha escrito este pequeno desabafo e eu fiquei profundamente tocado pelo relato. Ele me disse que era apenas uma história comum, que acontecia com um monte de gente. Resolvi publicar aqui (com o consentimento dele) para guardar o referido registro.
CARTA ABERTA AOS MEUS FAMILIARES E AMIGOS
Sempre tive a fama de ser chato, difícil, de não ter papa na língua, então vou fazer jus aqui a estes rótulos (adoro todos eles, de verdade). E sou fortalecido assim pela armadura que precisei vestir desde que nasci para enfrentar e bancar quem eu sou hoje.
Eu estou bem longe de ser militante de alguma causa, queria ser bem mais ativo e lutar por muitas coisas (também tenho minhas falhas). Mas também estou bem distante e cansado de tapar os ouvidos e fechar os olhos perante todo o preconceito embutido em “piadas inocentes” e todo o tipo de discriminação que eu já sofri nesses 36 anos.
E não, não é preciso ser preto para ser anti racista. Não precisa ser mulher para não ser um babaca machista. Logo, não é preciso ser gay para não ser homofóbico.
Também sei que muitas vezes temos atitudes meio que sem pensar, não nos questionamos nem temos empatia, mas acho que chegamos em um ponto em que viver sem pensar e se questionar é o maior crime que podemos cometer.
Você está lendo e pensando “nossa, mas que frescura”. Não, não é frescura. São 36 anos vivendo todo o tipo de preconceito velado e muitas vezes escancarado, tentando ver graça e achar certas situações normais. Talvez vocês nunca entendam, pois, gostem ou não, alguns estão em uma posição de privilégio, o que deixa o ser humano muitas vezes em uma zona de conforto (eu também, em alguns pontos, mas esta não é a discussão).
Cresci sem falar sobre sexualidade com ninguém. Me fez muita falta. Muita! Não entendia porque diacho somente eu não era “normal” e sentia atração pelos meninos e não pelas meninas. Foram incontáveis momentos de choro escondido, de desespero, de pensamentos suicidas (criança, adolescente - isso eu não acho normal!). Não tive ninguém pra segurar minha mão e me explicar que o que eu sentia era normal. Não fui acolhido e ninguém me disse que meus amigos e familiares estavam sendo babacas (mas poderiam/podem evoluir) por, por exemplo, dar risada de um casal de homens ou chamar alguém de viado como forma de demérito. Não pude falar para os meus pais sobre a minha primeira paixão, pois esta paixão tinha no meio das pernas um pênis igual a mim.
Certa vez, na escola, uma professora de educação física, (negra!), gritou na frente de todos que só estava faltando eu colocar uma saia pois não queria jogar futebol com os meninos. Inventei que estava com dor de barriga e pedi pra minha mãe ir me buscar na escola. Fui chorar no banheiro depois, claro.
Não tive um abraço de uma viva alma sequer para dizer que estava tudo bem e que eu podia ser o que eu era, sempre e em qualquer lugar. Aprendi sobre minha própria sexualidade na marra, sozinho, levando tapa na cara. Passei muito tempo me preocupando em me “comportar como homem”, em não falar de forma afeminada, para que ninguém percebesse que eu tinha algum problema e não fosse chamado de viado.
Cheguei a um ponto de namorar com uma menina para me encaixar no padrão heteronormativo imposto por todos a minha volta, que merda! Essa menina, um dia após eu negar ter um momento mais íntimo, escreveu com tijolo nas paredes do prédio: “ANDRÉ VIADO”. Fui limpar e chorar escondido depois. Alguém aqui já passou por algo parecido? Já namorou com alguém do sexo oposto por obrigação? Conseguiria fazer isso?
Por muitos anos eu não troquei carinho ou um beijo nem segurei a mão de um namorado na rua com medo de apanhar, de levar um tiro. Às vezes ainda tenho esses medos, mas hoje sou mais esclarecido e prefiro correr esses riscos e fazer parte de uma mudança que eu acredito, assim quem sabe seus filhos se forem gays possam ter espaço e liberdade para ser o que se sentirem a vontade para ser. Alguém aqui já sentiu esse medo?
Em um hotel do interior já me foi negado me hospedar com namorado em quarto com cama de casal pois aquele estabelecimento era “de família”, se quiséssemos ficar teria que ser em cama de solteiro. Fui embora.
Para não ter meus direitos podados, os mesmos que já são garantidos para as famílias-padrão brasileiras, é uma luta. Casamento, herança, pensão/benefício por morte do companheiro, dependente do companheiro em convênio médico...para conseguir precisa de uma “brecha na lei”, jurisprudências, piedade, precisa implorar, tem que lutar. Eu que lute, mais.
Poderia falar aqui sobre mais um monte de situações. Estas que descrevi são apenas uma pequena parte.
E aí a única coisa que as pessoas se questionam é porque a maioria dos homens gays e mulheres lésbicas se afasta da família, da sociedade “normal”, da igreja (nem vou comentar sobre isso). E os distanciamentos vem daí, de cansar de ter que lutar toda hora, de cansar de fingir, cansar de dar risada quando as piadas não tem graça e te ferem.
Para ajudar, ainda temos como representante maior um boçal, cerceador de direitos e ignorante, com posturas racistas, homofóbicas, machistas e xenófobas. E o povo aplaude, não pensando nos seus próximos (vou parar a parte da política aqui, continuo a falar sobre mim).
Então, tudo isso para dizer: evoluam!
Falem sobre sexualidade com seus filhos, sobrinhos, netos, amigos. Escutem, prestem atenção, acolham.
E não pensem que sou o único gay da família ou do meu círculo de amigos. Tem "hétero" aí vivendo sua vida e guardando seus desejos em um baú fechado com mil chaves. Dizem as estatísticas e o meu olho clínico...
Isto posto, sou cheio de feridas e cicatrizes, logo, as piadas, falas e memes, em sua grande maioria incomodam sim. Essas “brincadeiras inocentes” são as mesmas que incentivam a violência, é por causa delas que meus semelhantes apanham na rua, que morrem. É por causa delas que as mulheres são agredidas e violentadas. É por causa delas e mais um monte de situações que os comportamentos primitivos são validados. E tudo isso incomoda não só por mim não, incomoda porque vejo sofrimento nos outros também.
Não estou aqui julgando ninguém, nem cobrando nada de ninguém. Cada um de nós sabe onde ficou um espaço para ter sido alguém melhor. Mas estou sim, mostrando que tenho moral pra dizer o que incomoda, o que machuca, o que faz falta e que podemos ser melhores. E se tem alguém em dúvida ainda, não, as piadas não tem a menor graça. Sexualidade não é motivo de chacota. Alguém já foi o centro das atenções e motivo de piada por ser heterossexual? Basta pensar e ter empatia.
E apesar de tudo isso eu estou aqui. Venci todas as vezes que pensei em suicídio.
Estudei, tenho minha profissão (está todo mundo recluso por conta do coronavírus. As minhas folgas e férias foram canceladas e eu ouvi hoje que eu estava com preguiça de trabalhar por orientar pacientes sem urgência a ficar em casa - fiz um juramento quando me formei e o sigo, assim como, pasmem, a maioria diz que segue os mandamentos da Bíblia. Tenho minha vida, minhas alegrias, minhas frustrações, minhas lutas, minhas contas, meus amores. Sou um HOMÃO DA PORRA!
O que vai acontecer agora: 1) Ninguém vai falar nada, fingir que não é com você, ficar em silêncio como toda a sociedade faz. 2) Dizer que eu estou de mimimi, mesmo que em silêncio, como todos os babacas fazem. 3) Vão conversar entre si no particular e dizer que enlouqueci. 4) Vão refletir, evoluir, ter empatia e enxergar as coisas por outro ângulo. Talvez até não vá fingir demência.
E aí, onde você se encaixa? E de mimimi está você que está incomodado pelas minhas palavras mesmo estando errado.
André Luiz Baroni de Moura
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quarta-feira, 20 de maio de 2020
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