I
Em 2018, Letícia tinha apenas 8 anos – chegou em casa toda feliz! Pai - quero participar da rifa da escola – Vou ganhar uma cesta linda com um ovo de chocolate enorme , mais uma caixa de bombons e um coelho de pelúcia. Apenas 5 reais, cada bilhete com um número.
O pedido acendeu o sinal vermelho - fiquei imaginando se minha pequena primogênita entendia o que era uma rifa.
Não gosto de sorteios, bingos e loterias. Não me acho uma pessoa sortuda, detesto toda aquela improbabilidade, a fantasia de ganhar sem muito nexo ou lógica. Amo a matemática que me explica como tudo aquilo é improvável. Incontrolável. Também detesto a sensação de frustração que vem depois com o resultado . Gosto das coisas que eu posso controlar ou daquelas que eu acho que posso. Sim, admito. Não era apenas empatia e necessidade de proteger minha filha que estavam envolvidos nesta questão. Outros sentimentos que diziam respeito apenas a minha pessoa estavam envolvidos. Poderia levar isto para a terapia, se já não tivesse assuntos pendentes demais.
Calmamente, passei para o diálogo. Falei sobre como funcionaria o sorteio, como apenas uma criança sairia vencedora. Como aquilo causaria grande frustração nas demais. Preocupado e sisudo, expliquei sobre a importância de não se iludir demais e de poder lidar com a frustração inevitável depois. Eu estava lá tentando proteger minha filha de mais uma investida do mundo exterior.
A mãe dela tentou dizer algo para mim, mas não disse, não se opôs a minha explicação, mas também não me apoiou. Simplesmente, não se intrometeu, Letícia não ficou convencida com os meus argumentos, quis participar da rifa do mesmo jeito, mandamos o dinheiro para a escola e recebemos os respectivos bilhetes.
Na Quinta-feira Santa, antes do feriado seria o famigerado dia de sorteio e entrega do prêmio, fui buscar minha filha na escola. Vi minha profecia se realizando diante dos meus olhos, várias crianças saindo tristes e frustradas da escola (algumas chorando) por que não tinham sido sorteadas. Imagino que os pais reclamaram pois nos anos seguintes não houve novas rifas.
Quanto a Letícia, me pediram para esperar mais um pouco, por que ela estava com dificuldades pra carregar o material escolar e a cesta de chocolates que havia ganhado. Ela estava com um sorriso enorme quando a recebi no portão da escola.
II
Hoje as crianças acordaram mais cedo do que eu. Estavam ansiosas para brincar de procurar os chocolates. Tomamos café rapidamente, depois que eu fui expulso da minha cama e fomos para o quintal.
A brincadeira sempre divertida até hoje – envolve pistas e até mesmo – quando começa a ficar difícil – brincamos de quente e frio – quando elas chegam perto dos chocolates, eu digo, está esquentando, quando se afastam, eu digo – esfriou – e assim vai... até que elas encontram o desejado presente.
Este ano caprichei, comprei quatro chocolates bons e os escondi no quintal na véspera – estava todo empolgado com a alegria delas.
De repente, tudo degringolou - após alguns minutos de dificuldades, a mais velha encontrou os dois primeiros que estavam mais fáceis. A mais nova fica frustrada e desanimada, mas tenta disfarçar – pra piorar – cabe a ela procurar os dois restantes. E em nenhum momento eu tinha percebido que elas estavam competindo entre si.
A pior coisa para um pai que precisa ouvir é um filho que não quer falar.
Estou superfrustrado e chateado numa Roda Gigante de Sentimentos que eu não tinha pedido pra entrar. Os sentimentos dela se confundem com os meus.
Silêncio.
Birra.
Raiva
Impaciência.
Entrego os chocolates a pedido dela, encerrando a brincadeira.
Tento Conversar.
Tento nomear.
Tento me aproximar.
Sou rejeitado.
Me afasto.
Dou um tempo.
Você quer um colo ?
Vem no meu colo e se aninha, enquanto eu leio o jornal no computador.
E finalmente fala:
Pai, por que eu sou burra ?
Não é.
Sou.
Não é.
Sou.
Quase concordando para tentar fazer a conversa progredir, mas acho que seria um erro e uma mentira. Ela não tem nada de burra.
Comecei a falar pra ela que as pessoas são diferentes, que as inteligências também são. Comecei a falar das muitas qualidades dela, das coisas em que ela era muito boa.
Achei uma imagem na internet com os vários tipos de inteligência e começamos a conversar.
Expliquei cada uma delas, Falei que eu era bom em algumas e não tão bom em outras. Que meu irmão também tinha algumas inteligências que eu não tinha e vice versa. Olha esta aqui, você é muito boa em matemática e coordenação motora, a sua irmã é boa em relacionamento com outras pessoas, a mamãe era boa com plantas, bichos e natureza, o papai tem buscado autoconhecimento...
Devagarzinho o coração dela foi sossegando, começou a sorrir, saiu do meu colo e foi brincar ...



