quinta-feira, 23 de julho de 2020

RAPUNZEL

Rapunzel estava na janela  de sua torre sem escadas quando conheceu seu suposto belo príncipe.

Para falar a verdade, ele nem era tão bonito assim, nem se sabe ao certo se ele era um nobre de verdade,  mas  foi muito gentil com ela.

Tiveram uma conversa muito gritada, ela lá no alto e ele lá embaixo e começaram o que parecia ser uma amizade.

Ele lhe disse que tinha vontade de chegar mais perto, ao conversarem sobre como isto seria possível,   sugeriu que ela deixasse seu cabelo crescer, para utilizar como corda e escalar a torre.

O rapaz apareceu mais algumas vezes e depois desapareceu. Não que fosse má pessoa  ou algo do tipo, ninguém tinha lhe ensinado o valor das palavras e a importância de honrá-las. Apenas perdeu o interesse e tomou outro rumo, sem ao menos despedir-se, como sempre fez na vida, sem grandes preocupações.

Rapunzel  entretanto manteve-se firme no combinado .  Por muitos meses seguidos deixou seu cabelo crescer. Foi um processo duro e trabalhoso.

Rapunzel deixava o cabelo crescendo, crescendo e crescendo...

Rapunzel penteava seu cabelo  muitas e muitas vezes...

E os mantinha limpos ....

E os mantinha bem cuidados....

Do alto de sua torre, ela não entendia muita coisa, não sabia o que era a amizade ou amor, mas  imaginou que  se conversar de longe era bom, conversar de perto seria melhor.

E  cultivar  aquelas tranças enormes era muito cansativo, Rapunzel tinha que carregar aquele peso todo no seus cômodos no alto da torre e ficar impedindo  que  se enroscassem nas coisas.


Quando finalmente  estavam do tamanho que ela precisava para servir de acesso a torre, ela entendeu que seu amigo havia desaparecido de vez.

Num lampejo de lucidez, lhe ocorreu que jamais deveria ter  feito aquilo, pois se ele quisesse realmente  conversar com ela,  poderia trazer uma escada. Que tudo aquilo havia sido uma grande tolice.

Assim,  Rapunzel sentindo-se triste e frustrada  cortou suas tranças. Se sentiu leve e descobriu como aquilo era libertador, como tinham sido tão difíceis aqueles meses.

E quase que aquilo tudo parecia ter sido em vão.

De repente, ocorreu-lhe uma nova ideia, as mesmas tranças que poderiam servir pra alguém subir, poderia servir  para ela descer.  E foi isto que ela fez. Um pouco de medo e muito desajeitada, com algumas escoriações e um tombo quando faltava pouco para chegar ao chão, ela conseguiu alcançar seu objetivo.

E depois de tantos anos presa, resolver viajar pelos reinos ao redor, conhecer lugares  que nunca tinha imaginado que existissem. E assim iniciou-se uma linda jornada.

Olhos de Estrelas - Texto de Letícia Luna - Ilustração de Lorena Luna



Olhos de Estrela

Mãe das Estrelas, Minha Mãe,
Mãe das Constelações, Mãe da Ursa Maior,
Mãe da Ursa Menor.

Mulher de Cabelos Negros,
Mãe de Cabelos da Via Láctea.

Seu olhar de Buraco Negro,
Me suga até você.

Seus olhos com pupilas de Lua Cheia,
Muitas Estrelas não posso ver a olho nu,
Porém vejo as
Estrelas nos seus olhos,
Acompanhadas de Amor.

A Terra não é o centro do Universo,
Nem você.
Mas faz parte do mais importante,
o Meu Coração.

Dedico este poema a minha mãe

Letícia Luna
20/07/2020



quarta-feira, 20 de maio de 2020

Carta Aberta aos Amigos e Familiares - Texto de André Luiz Baroni de Moura

Esta carta recebi do meu  amigo André no dia 14 de março de 2020 - via whatsapp  - ele tinha escrito este pequeno desabafo e eu fiquei profundamente tocado  pelo relato. Ele me disse que era apenas uma história comum, que acontecia com um monte de gente. Resolvi publicar aqui (com o consentimento dele)  para guardar   o referido registro.

CARTA ABERTA AOS MEUS FAMILIARES E AMIGOS

Sempre tive a fama de ser chato, difícil, de não ter papa na língua, então vou fazer jus aqui a estes rótulos (adoro todos eles, de verdade). E sou fortalecido assim pela armadura que precisei vestir desde que nasci para enfrentar e bancar quem eu sou hoje.
Eu estou bem longe de ser militante de alguma causa, queria ser bem mais ativo e lutar por muitas coisas (também tenho minhas falhas). Mas também estou bem distante e cansado de tapar os ouvidos e fechar os olhos perante todo o preconceito embutido em “piadas inocentes” e todo o tipo de discriminação que eu já sofri nesses 36 anos.
E não, não é preciso ser preto para ser anti racista. Não precisa ser mulher para não ser um babaca machista. Logo, não é preciso ser gay para não ser homofóbico.
Também sei que muitas vezes temos atitudes meio que sem pensar, não nos questionamos nem temos empatia, mas acho que chegamos em um ponto em que viver sem pensar e se questionar é o maior crime que podemos cometer.
Você está lendo e pensando “nossa, mas que frescura”. Não, não é frescura. São 36 anos vivendo todo o tipo de preconceito velado e muitas vezes escancarado, tentando ver graça e achar certas situações normais. Talvez vocês nunca entendam, pois, gostem ou não, alguns estão em uma posição de privilégio, o que deixa o ser humano muitas vezes em uma zona de conforto (eu também, em alguns pontos, mas esta não é a discussão).
Cresci sem falar sobre sexualidade com ninguém. Me fez muita falta. Muita! Não entendia porque diacho somente eu não era “normal” e sentia atração pelos meninos e não pelas meninas. Foram incontáveis momentos de choro escondido, de desespero, de pensamentos suicidas (criança, adolescente - isso eu não acho normal!). Não tive ninguém pra segurar minha mão e me explicar que o que eu sentia era normal. Não fui acolhido e ninguém me disse que meus amigos e familiares estavam sendo babacas (mas poderiam/podem evoluir) por, por exemplo, dar risada de um casal de homens ou chamar alguém de viado como forma de demérito. Não pude falar para os meus pais sobre a minha primeira paixão, pois esta paixão tinha no meio das pernas um pênis igual a mim.
Certa vez, na escola, uma professora de educação física, (negra!), gritou na frente de todos que só estava faltando eu colocar uma saia pois não queria jogar futebol com os meninos. Inventei que estava com dor de barriga e pedi pra minha mãe ir me buscar na escola. Fui chorar no banheiro depois, claro.
Não tive um abraço de uma viva alma sequer para dizer que estava tudo bem e que eu podia ser o que eu era, sempre e em qualquer lugar. Aprendi sobre minha própria sexualidade na marra, sozinho, levando tapa na cara. Passei muito tempo me preocupando em me “comportar como homem”, em não falar de forma afeminada, para que ninguém percebesse que eu tinha algum problema e não fosse chamado de viado.
Cheguei a um ponto de namorar com uma menina para me encaixar no padrão heteronormativo imposto por todos a minha volta, que merda! Essa menina, um dia após eu negar ter um momento mais íntimo, escreveu com tijolo nas paredes do prédio: “ANDRÉ VIADO”. Fui limpar e chorar escondido depois. Alguém aqui já passou por algo parecido? Já namorou com alguém do sexo oposto por obrigação? Conseguiria fazer isso?
Por muitos anos eu não troquei carinho ou um beijo nem segurei a mão de um namorado na rua com medo de apanhar, de levar um tiro. Às vezes ainda tenho esses medos, mas hoje sou mais esclarecido e prefiro correr esses riscos e fazer parte de uma mudança que eu acredito, assim quem sabe seus filhos se forem gays possam ter espaço e liberdade para ser o que se sentirem a vontade para ser. Alguém aqui já sentiu esse medo?
Em um hotel do interior já me foi negado me hospedar com namorado em quarto com cama de casal pois aquele estabelecimento era “de família”, se quiséssemos ficar teria que ser em cama de solteiro. Fui embora.
Para não ter meus direitos podados, os mesmos que já são garantidos para as famílias-padrão brasileiras, é uma luta. Casamento, herança, pensão/benefício por morte do companheiro, dependente do companheiro em convênio médico...para conseguir precisa de uma “brecha na lei”, jurisprudências, piedade, precisa implorar, tem que lutar. Eu que lute, mais.
Poderia falar aqui sobre mais um monte de situações. Estas que descrevi são apenas uma pequena parte.
E aí a única coisa que as pessoas se questionam é porque a maioria dos homens gays e mulheres lésbicas se afasta da família, da sociedade “normal”, da igreja (nem vou comentar sobre isso). E os distanciamentos vem daí, de cansar de ter que lutar toda hora, de cansar de fingir, cansar de dar risada quando as piadas não tem graça e te ferem.
Para ajudar, ainda temos como representante maior um boçal, cerceador de direitos e ignorante, com posturas racistas, homofóbicas, machistas e xenófobas. E o povo aplaude, não pensando nos seus próximos (vou parar a parte da política aqui, continuo a falar sobre mim).
Então, tudo isso para dizer: evoluam!
Falem sobre sexualidade com seus filhos, sobrinhos, netos, amigos. Escutem, prestem atenção, acolham.
E não pensem que sou o único gay da família ou do meu círculo de amigos. Tem "hétero" aí vivendo sua vida e guardando seus desejos em um baú fechado com mil chaves. Dizem as estatísticas e o meu olho clínico...
Isto posto, sou cheio de feridas e cicatrizes, logo, as piadas, falas e memes, em sua grande maioria incomodam sim. Essas “brincadeiras inocentes” são as mesmas que incentivam a violência, é por causa delas que meus semelhantes apanham na rua, que morrem. É por causa delas que as mulheres são agredidas e violentadas. É por causa delas e mais um monte de situações que os comportamentos primitivos são validados. E tudo isso incomoda não só por mim não, incomoda porque vejo sofrimento nos outros também.
Não estou aqui julgando ninguém, nem cobrando nada de ninguém. Cada um de nós sabe onde ficou um espaço para ter sido alguém melhor. Mas estou sim, mostrando que tenho moral pra dizer o que incomoda, o que machuca, o que faz falta e que podemos ser melhores. E se tem alguém em dúvida ainda, não, as piadas não tem a menor graça. Sexualidade não é motivo de chacota. Alguém já foi o centro das atenções e motivo de piada por ser heterossexual? Basta pensar e ter empatia.
E apesar de tudo isso eu estou aqui. Venci todas as vezes que pensei em suicídio.
Estudei, tenho minha profissão (está todo mundo recluso por conta do coronavírus. As minhas folgas e férias foram canceladas e eu ouvi hoje que eu estava com preguiça de trabalhar por orientar pacientes sem urgência a ficar em casa - fiz um juramento quando me formei e o sigo, assim como, pasmem, a maioria diz que segue os mandamentos da Bíblia. Tenho minha vida, minhas alegrias, minhas frustrações, minhas lutas, minhas contas, meus amores. Sou um HOMÃO DA PORRA!

O que vai acontecer agora: 1) Ninguém vai falar nada, fingir que não é com você, ficar em silêncio como toda a sociedade faz. 2) Dizer que eu estou de mimimi, mesmo que em silêncio, como todos os babacas fazem. 3) Vão conversar entre si no particular e dizer que enlouqueci. 4) Vão refletir, evoluir, ter empatia e enxergar as coisas por outro ângulo. Talvez até não vá fingir demência.
E aí, onde você se encaixa? E de mimimi está você que está incomodado pelas minhas palavras mesmo estando errado.


André Luiz Baroni de Moura

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https://www.instagram.com/andrelbmoura/

terça-feira, 28 de abril de 2020

Algumas Verdades (ou não)

01 – Quem não tem cão, não caça nada e quem tem cão, muitas vezes,  nunca caçou nada também.

02 – Em Terra de Cego, quem tem muito dinheiro  vira rei.

03 – Dois pássaros voando são mais lindos do que um na mão.

04 – Quem espera, muitas vezes cansa.

05 – Devagar, pode-se ir longe, mas demora mais.

06 – Água mole em pedra dura, tanto bate que a gente nem percebe a diferença.

07 – Quem tem boca, muitas vezes não vai a lugar nenhum.

08 – A pressa é inimiga da perfeição, mas tem muita porcaria também que foi entregue no prazo ou com atraso.

09 – De grão em grão provamos nossa avareza.

10 – Cada macaco no seu galho é uma idéia que pode ser muito autoritária.

11 -  Filho de peixe, nem sempre peixinho é.

12 - Deus ajuda independente da hora que você acordar.

13 – Onde há fumaça, pode haver gelo seco.

14 – Cão que ladra, às vezes, morde.

15 – Pimenta nos olhos dos outros é uma oportunidade para a empatia.

16 – Quando um burro fala, infelizmente, é muito escutado.

17 – À noite todos os gatos são pardos, se a iluminação for ruim.

18 – Deus escrevendo por linhas retas ou tortas, a maioria  das pessoas só entende o que quer entender.

19 – Quem com ferro fere, pode ficar ileso ou pode ser ferido com outra coisa.

20 – Mente vazia pode ser uma grande oficina para a criatividade.

21 – Cavalo dado pode ser educadamente recusado

22 -  Ladrão que rouba ladrão também é ladrão, perdão não tem nada a ver com isto.

23 – O seguro morreu de velho, mas pode ter tido uma vida muito sem graça.

24 – Cada panela tem sua tampa, mas tem coisa que não se encaixa direito, que  pode ser boa e funcionar por um tempo.

25 – Uma andorinha sozinha não faz verão, mas pode ser mais feliz e viver melhor do que as outras.

26 – Quem tem boca  pode ir  a Roma, mas quem tem um bom GPS também pode chegar lá.

27 – O barato  pode sair caro, mas o caro certamente também sairá.

28 – Chorar pelo leite derramado num ombro amigo é muito bom.

29 – De vez em quando, deixe para amanhã o que você podia fazer hoje e dê uma relaxada.

30 – Se a esmola é demais, o santo quer mais.

31 – Pergunte me com quem eu ando e eu te direi o quão    preconceituoso você é.

32 – Nem tudo que cai na rede, é peixe.

33 – Gato escaldado devia ter medo de quem esquenta a água.

34 – Quem se mistura com os porcos, também pode comer presunto, bacon, bisteca, pernil, etc ...

35 – Antes só do que mal acompanhado, mas não exagere na solidão.

36 - Vaso ruim quebra, mas ninguém dá importância.

37 -  Quem pariu Matheus, que possa receber ajuda de verdade para cuidar muito bem dele. 

sábado, 21 de março de 2020

Cinderela Invertida - texto de Letícia Luna

Quando a Letícia com quase 10 anos chegou com esta lição de casa neste começo de ano e me mostrou, fiquei totalmente encantado, o texto dela estava totalmente de acordo com a proposta original do meu blog, que era subverter contos infantis e dar uma abordagem moderna e crítica para eles. Procurem os textos antigos para conferir. Decidi publicá-lo, mas demorei um pouco pois  estava sem tempo.  Fiz algumas correções para o texto ficar mais claro, mas a ideia é totalmente dela, conforme pode se ver na foto abaixo.   Ah, e vejam só, já  tenho uma pequena feminista em casa.

Cinderela Invertida - texto de Letícia Luna

Era uma vez uma garota que gostava  de palácios e coisas do tipo. No baile real decidiram chamar os cidadãos. Ela queria ir, mas  o padrasto não deixou, mas ela conhecia a história e decidiu esperar a fada.
Algumas horas depois:
- Cansei, é fada que não chega. Esta blusa, calça e salto combinam.  O uber chega daqui a 15 minutos.
No baile, ela dançou, comeu e viu que a festa estava chata  e o sapato incomodando. Chamou o uber para a volta e desceu a escadaria.
 O príncipe a viu:  - Ei, aonde você vai?
 Ela respondeu:  - Embora, sapato chato, odeio salto. Por que eu vim com isto ? Toma príncipe! Fique com ele.
E foi embora.
O príncipe perguntou: - Ei escritora, vou ter que casar com ela?
 - Não!
Ele respondeu: - Ufa.
A garota decidiu que não  precisava de homem nenhum para ser feliz e  criou um negócio próprio.
E viveu feliz.


Fim





Manual do Luto Infantil

Há poucos meses perdi minha companheira que veio a falecer por causa de complicações pós cirurgia bariátrica, assim tive que assumir totalmente a responsabilidade pela criação de minhas filhas de 10 e 7 anos. Recentemente, recebi a visita de um prestador de serviços na minha casa que me contou que sua irmã está passando por situação semelhante.

A partir da conversa com ele, acabei tendo a ideia de formular um pequeno manual com minha opinião sobre o assunto a partir da minha vivência. Estas ideias não são exatamente minhas, elas surgiram a partir da contribuição e da solidariedade de várias pessoas que formaram uma pequena rede de apoio tanto material, como afetivo e intelectual que me permitiram atravessar estes meses de grande dificuldade. Deixo de citar nomes para não esquecer ninguém, mas se você fez parte disto, fica aqui meu agradecimento.



As primeiras recomendações são para o cuidador principal da criança, seja o pai ou a mãe que ficaram sozinhos ou para a pessoa que vai ter que receber a(s) criança(s) órfã(s), fazendo analogia com as recomendações de emergência de um avião, você primeiro deve se cuidar (colocar sua máscara de oxigênio), para assim, em segurança ter condições de cuidar da criança (colocar a máscara dela). Lógico que a questão é complexa, muitas coisas têm que ser feitas simultaneamente, mas tudo bem, aos poucos as coisas se ajeitam:



01 – Tenha Fé e ensine suas crianças a terem também – você não precisa ser forte e acertar todos os dias, lógico que você está passando por um momento muito difícil, talvez o momento mais difícil da sua vida, mas procure ter Fé, não falo apenas em Deus (Acreditar que há um Ser Superior, que te ama e tem um plano para você e que Ele está no controle pode te ajudar também, na hipótese de você ser religioso) mas tenha Fé na sua capacidade de enfrentar os problemas, resolvê-los da melhor forma possível, não precisa que as coisas sejam perfeitas, nunca serão, acredite que você pode conseguir e que suas crianças podem crescer para serem pessoas felizes, saudáveis e bem resolvidas, apesar da grande perda que sofreram e que você tem condições e merece reconstruir a sua vida;



02 – Tenha Amor a Vida – apesar da difícil situação que você está vivendo, procure lembrar que dias ensolarados virão, que a vida é muito boa, que tem muita coisa boa para ser vivida, muitos encontros familiares, muitos passeios, muitas reuniões com as pessoas que te fazem felizes, muitas viagens para fazer, muitos cafés e jantares prazerosos. Tenha amor a vida e devagarzinho plante este amor no coração das crianças. Muita gente cresce sem um pai, ou sem a mãe, muitos não têm comida em casa,  têm doenças horríveis, outros são filhos de pais ausentes, displicentes ou abusadores de todos os tipos; Assim a criança que perdeu os pais, apesar do grande vazio que ela terá na vida, poderá crescer como uma pessoa feliz, sim. É duro, mas o mundo não acabou e a vida continua; a pessoa que perdeu um companheiro, também está passando por uma situação muito difícil, mas também poderá devagarzinho, reconstruir uma nova vida, talvez não tão boa como aquela, mas também é possível voltar a viver bem.



03 – Monte o seu grupo de apoio possível – provavelmente, ninguém poderá te ajudar integralmente, você terá que fazer muitas coisas sozinho, mas pense que você está atravessando um deserto, a travessia é sua, mas  alguém pode te oferecer um copo de água; não vai resolver muitas vezes, mas vai deixar tudo mais suave: alguém para cuidar da criança de vez em quando, uma terapia, uma carona, um amigo para dar um pouco de colo, alguém para conversar, toda ajuda vale a pena e é bem vinda. E você está precisando.

04 – Cuide-se - o adulto responsável pela criança tem que trabalhar muito para estar bem e para poder cuidar das crianças (isto inclui – de acordo com seu gosto e sua vontade - ter um tempo para própria vida, passear, ver pessoas , fazer atividades prazerosas, se gostar, ir pra academia, cuidar da alimentação, ter ajuda da família para poder descansar das crianças), viver o luto, mas ter coragem de em algum momento ter planos e metas para o futuro, fazer terapia, aos poucos organizar-se para ter sua vida própria, com autonomia e independência em relação as crianças.



05 – tudo isto pode parecer muito forçado ou exagerado, mas não há pressa, as coisas vão demorar um pouco para melhorar, não precisa acertar e ser forte todos os dias, pode-se trabalhar todas estas questões aos poucos, as coisas vão se assentando dia após dia.



Com relação as crianças:



01 – Falar sobre a morte é uma coisa muito difícil. Culturalmente, costumamos evitar o assunto, como se por pensamento mágico, se eu não falar, não acontecerá. Deve se procurar falar com a criança do modo que a morte é entendida dentro dos valores da família. Procurar falar da maneira mais franca e objetiva possível. Evitar uma abordagem desesperadora – fatídica – demasiadamente triste ou histriônica - que passe para a criança a ideia de que a vida dela também acabou ou que ela não sinta segurança no seu cuidador. No meu caso, preferi assumir que a humanidade não entende muito bem a morte e que cada um entende de um jeito, (discorri sobre as idéias filosóficas e religiosas da morte) e que ninguém tem a resposta correta para isto. Também fiz questão de frisar que a nossa vida continua, que a vida é muito boa e devemos seguir em frente;



02 – Devemos deixar espaço para as crianças falarem o que estão sentindo e o que querem; minha caçula perguntou me se eu a amava de verdade (sim!), por que eu a amava (dei uma lista enorme), pediu para não ser esquecida no restaurante uma vez (tranquilizei-a), perguntou várias vezes se nunca mais veria a mãe (respondi que não a veria de novo), me pediram madrasta (mãe nova – expliquei que isto era muito difícil), quiseram saber o que iria acontecer se eu morresse também (dei uma lista enorme de pessoas que a amavam e respondi que um dos tios certamente cuidaria delas, não iriam para um abrigo); disseram que sentiam falta (eu também), que estavam tristes (eu também), que tinham raiva (eu também), que era injusto (concordei), se era errado ganhar coisas e passeios por que a mãe morreu (respondi que podiam usufruir das coisas por que a perda era grande demais e nunca seria compensada com ganhos pequenos);
03 - as crianças tem que ter todos os sentimentos reconhecidos e validados, ou seja, ensinar que a tristeza, a raiva, a saudades, tudo é normal; falar com honestidade que está sentindo a mesma coisa, chorar junto é importante, é bom evitar o desespero, a falta de fé; precisa saber que não há conserto para a morte, não podemos brigar com ela, apenas aceitação; falar que vai passar ou melhorar nem sempre é uma boa ideia; Não há sentimentos errados, se aconteceram coisas ruins, devemos ter sentimentos de acordo com estes fatos.
03 - as crianças podem ganhar muito amor, carinho, consolação, mimos e passeios;
04 - perder os pais não autoriza a criança a ser irresponsável, ela tem que ter limites, regras, cumprir obrigação na escola, ajudar em casa, tratar todas as pessoas com respeito, mãe, parentes, professores e amigos - tem que ser um pouco duras com ela; uma vida com rotinas e estrutura dá segurança pra criança e liberdade ao adulto; perder o pai ou a mãe não autoriza ninguém a ser tratado como privilegiado pela sociedade, todos tem que trabalhar, estudar, ser honestos. Muita gente prefere dar uma educação permissiva achando que a criança não pode lidar com a perda, pode sim, é difícil, perder um pai ou uma mãe não torna a criança despreparada para a vida, pelo contrário, a perda pode ser uma oportunidade para a criança desenvolver mais autonomia; criar uma criança sem limites, sem obrigações, sem responsabilidades vai torná-la despreparada e problemática; tem que ter ternura, mas tem que ter firmeza também, tem o certo e o errado, a criança pode receber os valores de sua família e de seus pais;
05 - a perda de um dos genitores não tem reparação, tem que trabalhar a aceitação; tentar compensar a falta de um pai ou de uma mãe é um erro; não tem como compensar, é uma perda enorme, não tem remédio, tem que seguir em frente;
06 - criança é criança, ela não deve ser chamada a assumir responsabilidade dos pai que faltou, o mais velho não é o novo homem da casa; a mais velha não é a mulher da casa; a criança mais velha mesmo que tenha que ajudar a cuidar da casa ou trabalhar para o sustento da família, deve ser respeitada, mas não está preparada para assumir a autoridade ou o papel do genitor falecido perante os outros irmãos, é um fardo pesado demais para todos;
07 - criança é um ser inteligente, se for tratada com honestidade e franqueza, ela vai aprender a confiar no adulto responsável, se não houver dentro de casa, ela vai procurar na rua, e não sabemos quem vai poder orientá-la;

08 - Seja positivo, tenha fé, comece a contar uma história positiva, vamos vencer, a vida é boa, sua mãe  iria  ficar feliz de ver  que nós vencemos, vamos enfrentar juntos, seja honesto, seja trabalhador, estude, respeite a todos, etc....



09 – Procure ajuda especializada; procure bons psicólogos; se houver recomendação, a criança pode ir pra terapia também; a internet tem vários blogs e artigos sobre o assunto. Há livros adultos e infantis sobre o luto. Eu, particularmente, gostei muito do livro e indico : Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar da Adele Faber e Elaine Mazlish, editora Summus; ele não é sobre luto, mas me ajudou e continua ajudando a cuidar da parte emocional das crianças.



Bom, era isto, se você por algum motivo chegou até aqui, espero que este texto seja útil... Qualquer coisa, comente.