quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Amor de Novela


Eu quero um amor de novela, um daqueles que dá tudo certo ao final.

Pra falar a verdade, eu quero é mais, quero um amor de um romance ruim.
Quero ser feliz todos os dias, quero ser feliz a vida inteira.
Eu também quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida.
Quero um amor de comercial de margarina, quero acordar de manhã com cabelos penteados e hálito de hortelã.
Quero viver uma história de amor sem graça, daquelas que até o vilão se arrepende e tem direito a final feliz.
Quero um amor de tédio, de estar todos os dias de mãos dadas e sorrindo, sem palavras ríspidas, sem desencontros, sem mal entendidos.
Quero um amor com voz baixa, olhar sereno e sorriso generoso.
Quero uma história de amor que seja tão perfeita que ninguém precise pedir perdão.
Quero um amor sem dúvidas e sem contradições.
Quero um amor sem surpresas, nem confusões.
Quero o amor da minha cara metade.
Quero o amor dos opostos que se atraem, dos parciais que se completam e dos iguais que se identificam, o amor das almas gêmeas.
Quero aquele amor que já veio escrito nos mapas astrais, que já tinha sido combinado pelos pais, que a cigana leu nos dois pares de mãos, aquele que estava escrito nas estrelas.
Quero um amor de cinema, daqueles que os dois se conhecem quando criança,  ficam juntos e velhinhos, com os filhos e o netos criados. E na cena final, de mãos dadas na varanda de um rancho, um belo por do sol no horizonte, os créditos começam a subir antes da história terminar.
Mas eu não tive nada disto, tive apenas a sorte de  um daqueles amores de verdade, daqueles que valem   a pena do início ao fim. 

Foto: arquivo pessoal

terça-feira, 8 de outubro de 2019

O TELEFONE DO CÉU

Minhas  Queridas Filhas Letícia e Lorena,

Esta caixinha é o Telefone  do Céu. Vou explicar para vocês como funciona.

Existem dois universos diferentes.

O Universo que a gente vive que é o Universo da Impermanência, onde tudo é frágil, delicado e temporário. Aqui as coisas estão sempre mudando, isto não é bom, nem mau, apenas é assim. Ele é um lugar lindo e cheio de alegrias, tristezas e mistérios, coisas boas e ruins, mas é muito bom estar aqui. A mamãe de vocês amava este lugar, ela gostava de visitar as pessoas, de namorar e fazer amor  com o papai,  de estar com  os amigos,  de cuidar das casa, dos bichos, das plantas,  das crianças e dos amigos dela,  de comer, de passear e de festas.  A mamãe entendia muito bem que tudo isto era passageiro e que um dia se acabaria. Por isto ela aproveitou muito a vida e cuidava das coisas mais importantes. Apesar das tristezas e mesmo tudo sendo tão passageiro, aproveitem bastante o tempo que nós estamos aqui, pois viver é muito bom. Não esqueçam,  aqui as coisas mudam e o tempo da mamãe aqui terminou e não sabemos  o porquê, é um mistério. Mistério é o que a gente não consegue explicar e tem muitos mistérios na vida. Nosso tempo neste mundo chama-se vida e a vida tem começo, meio  e fim. E a vida da mamãe que era o tempo dela com a gente terminou.

Tem também outro mundo que a gente não consegue tocar ou experimentar , apenas  sentir, ele não está longe, mas não podemos vê-lo, nós podemos apenas senti-lo. É o mundo das coisas eternas, das coisas que não mudam, é o mundo do amor, das saudades, das memórias e das idéias. É o mundo das coisas que são mais importantes. Algumas pessoas chamam este lugar de Céu, outras pessoas chamam de  Coração, o que gera a maior confusão, por que é parecido com o coração que a gente tem no peito, mas como nem os adultos entendem direito, cada um explica de um jeito diferente,  ninguém sabe  como é lá.  É outro Mistério. A mamãe agora mora lá.

Quando a gente esta vivo nós vivemos em um corpo, mas como a cirurgia da mamãe deu errado, ela teve que deixar o corpo para trás, o corpo  parou de funcionar e não serve para mais nada. Mas a gente mandou transformar o corpo dela em cinzas e vamos colocar num lugar muito bonito, que é uma forma de dizer que a gente amava muito ela, que nem a gente fez com as cinzas da vovó.

A mamãe agora não mora no  corpo dela, ela  mora no mundo das coisas eternas que vcs podem chamar de Céu ou de nosso Coração, lá não tem correio, nem email, nem whatsapp, nem celular, nem telefone, nem tablet. Assim não podemos falar com ela  do jeito que estamos acostumados, vamos ter que aprender um jeito novo. Todo nosso amor pode chegar até lá e todo o amor dela pode vir de lá para cá também. E assim podemos sentir  que a mamãe continua com a gente.

O papai fez esta caixinha pra vcs conversarem com a mamãe, vamos chamá-la de  Telefone do Céu, quando vocês tiverem vontade de conversar com a mamãe, vocês podem fazer um desenho ou escrever uma carta, tudo que vocês quiserem contar para a mamãe, vocês podem colocar aqui dentro, pois o papel vai ficar sempre aqui, mas o amor  que vcs colocarem neste papelzinho vai chegar até a mamãe e vocês vão sentir o amor que ela ainda têm por vocês e vão se sentir bem. Agora a mamãe vive no mundo do amor.

O papai  é muito curioso e vai espiar as cartinhas e os desenhos por que vocês são pequenas. Tem gente que acha feio espionar  a carta dos outros, mas como vocês já estão sabendo, acho que não tem problema.

Aproveitem  esta caixinha, o nosso Telefone do Céu e conversem bastante com a mamãe. Vai fazer muito bem para vocês e a mamãe também vai ficar muito feliz de receber notícias de vocês.

Se vcs não entenderem direito tudo o que eu falei, não se preocupem, eu também não entendo muito bem. É o tal Mistério! Se vcs quiserem ficar triste e chorar, também podem por que o papai também está triste e chorando. Se vcs ficarem com raiva ou com saudades, não tem problema, tudo isto é muito normal. É muito difícil aceitar que as coisas mudam, mas elas também mudam para   melhor .  Lembrem-se que estamos juntos e que nos amamos.

Com todo o coração, Papai!

ILUSTRAÇÃO DA LELÊ

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Chuva de desenhos da Lelê!

De repente, a Letícia pega um lápis e papel  e em poucas horas faz um monte de desenhos.  Amo!!!



























quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Misérias

Crianças descalças
Crianças de coturno
Crianças sem higiene
Crianças limpas demais
Crianças molestadas
Crianças sem amor
Crianças desnutridas
Crianças obesas
Crianças nos semáforos
Crianças sem limites
Crianças sem saúde
Crianças dopadas
Crianças sem escola
Crianças sem tempo para brincar
Crianças mudas
Crianças sem ninguém para ouví-las
Crianças sem brinquedos
Crianças afundadas em consumo
Crianças sem pais
Crianças na internet o dia todo
Criança sem educação
Criança sem nenhum não
Crianças sem nada
Crianças com excessos
Crianças sem opção
Crianças que nos dão medo
Crianças tristes sem nada
Crianças tristes com tudo
Crianças …


sábado, 20 de julho de 2019

Em Fuga


O personagem está preso, a pessoa é livre.
O personagem se repete, a pessoa muda.
O Lobo Mau cansou de comer a vovó ou  seus docinhos ou de correr atrás dos porquinhos. Mudou de nome e foi se embora da floresta  para  "viver deliberadamente, para sugar a essência da vida, para expulsar o que não era vida, e para que, não  ao morrer, descobrir que não viveu".
A Rainha Má não quer mais perseguir sua enteada. Vendeu seu espelho mágico em um Brique, parou de tingir o cabelo ou usar botox, resolveu assumir a   própria idade e viajar pelo mundo.  Não se lembra de mandar cartões postais para Branca de Neve e está mais feliz do que achava que poderia ser.
Gepeto entrou para o Child Free  sem muito engajamento,   resolveu buscar outro sentido para a própria vida.
Malévola  resolveu cuidar da sua imagem, com humildade procurou  pessoas que fazem cinema e resolveu contar a sua versão da história.  Ficou muito feliz com o sucesso.
Gancho respondeu por seus crimes na Terra do Nunca, sua pena foi convertida em prestação de sorvetes para os meninos perdidos, abandonou a pirataria e tornou-se um honrado capitão.
As irmãs da Cinderela não querem mais saber de casamento, resolveram estudar,  trabalhar e  fizeram grande fortuna.  São felizes e independentes e há muito tempo pediram perdão  à ex-gata  borralheira pelas maldades que fizeram quando  imaturas. Hoje são invejadas pela maioria das princesas.
O personagem está preso, a pessoa é livre.
O personagem se repete, a pessoa muda.

Fim

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Os Apóstolos do Amor

A Roda gira
Gira a Roda
do Amor que gira
quem ama
Gira a Roda


Pietra ama
André ama
Filipa ama
Tomei ama
Bartolomeu ama
Judite ama

A Roda gira
Gira a Roda
do Amor que gira
quem ama
Gira a Roda

Pietra ama demais
Pietra ama até gritar
Mas nas horas em que as coisas apertam
Com o amor de Pietra você não pode contar

André ama amar
Mas André tem obrigações
André é correto
André faz o que é certo
Mas tudo vem antes de amar

A Roda gira
Gira a Roda
do Amor que gira
quem ama
Gira a Roda

Filipa ama seus filhos
Filipa cuida de seus filhos
Filipa já decidiu o que
bem quer para eles
E Filipa ama

Tomei ama sem saber
Tomei não sabe o que é amar
Tomei não acredita no amor
Tomei só acredita no que tocar



A Roda gira
Gira a Roda
do Amor que gira
quem ama
Gira a Roda


Bartolomeu diz amar
mas não ouve quem ama
não liga pra quem ama
nunca está com quem ama
Bartolomeu não sabe amar

Judite acha que sabe amar
Mas Judite ama o que não tem
Judite só ama o que se pode comprar
Judite ama viajar


A Roda gira
Gira a Roda
do Amor que gira
quem ama
Gira a Roda


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Recado

Eu estava na minha, bem tranquilo
Feliz  como um pássaro no ninho
Nas mãos,   um café e  um bom livro
Tarde de sábado e   sorriso
Uma brisa no peito
Nada  suspeito.


E então, recebo um recado
de repente, ninguém   mais ao meu lado
não veio por carta, nem telefone, nem a nado
Foi forte, rápido e certeiro  em um gesto indelicado
ainda que nada tenha sido  falado.

Por que o sentimento  não é suficiente,
Dizê-lo nada resolve
pois num ato impensado
tudo simplesmente se dissolve.

E na manhã seguinte,
não há chão,
nem chinelo  para seus  pés
mesmo assim , não tem importância....
Basta seguir em frente,
E sempre...

Nem tudo foi em vão...


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Menino


Pobre Menino, deixa ele andar em cima da mesa – é um bebê.
Sai daí de cima,  não te dei educação.
Deixa ele levar o brinquedo pra casa dele, é uma criança.
Não pode pegar as coisas dos outros, meu filho.
É pra comer tudo.
Chega de comer, parece que não tem fundo.
Coma um doce, criança pode.
Está com dente estragado –  mandei você escovar os dentes direito.
Vai lá e resolve, homem que é homem não leva desaforo para casa.
Poxa,  não criei você pra chegar machucado em casa.
Meu filho não tem que limpar a casa não, isto é serviço para a mulher.
Aff, este homem depende da mãe para tudo, não sabe se virar não.
Homem não chora, para com isto.
Se você estava com problemas, por que não veio conversar.
Não se amarre em ninguém, você é jovem e tem que aproveitar a vida.
Você precisa achar uma mulher trabalhadora e de respeito.
Não vai beber por que amarelou.
Como assim você bateu o carro e foi parar na delegacia.
Estudar para quê.  Vamos sair, é fim de semana...
Que notas ruins, você não serve para estudar não...
Você tem que escolher um emprego que esteja a sua altura, não pode aceitar qualquer coisa.
Desempregado ainda, você é um vagabundo.
Você precisa dar valor ao seu emprego.
Ainda no mesmo emprego, você é muito acomodado.
Ela não serve para você, você merece uma mulher melhor.
Você está solteiro ainda, que vida mansa.
Está na hora de você se comprometer com alguém, está namorando há muito tempo.
Casar .., Você não consegue nem pagar as suas contas.
Casou tem que ter filhos.
Grávidos de novo, quando vocês vão parar.
Quem pariu Matheus que o embale.
Você precisa trazer as crianças, estou com saudades,
Você é um pai muito rígido, está sufocando seus filhos.
Você anda muito mole, estes seus filhos  precisam de limites.
Ir ao médico para qual finalidade, você é tão forte.
Você já é uma pessoa madura, devia  se cuidar melhor.
Vai se separar por que, ficar sozinho não é bom.
Qual motivo para  casar de novo ..., casamento é tudo igual.
Você é muito acomodado, fazendo sempre as mesmas coisas.
Você não é mais jovem para inventar novidades.
Você precisa se preparar para a vellhice.
Que pão duro, aproveite um pouco a vida.
Era tão novo para morrer, mas sempre foi  muito cabeça dura, nunca ouviu ninguém.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

SAPO REI

Sapo Rei vivia no seu brejo. Sempre molhado, abafado e cheio de vida .  As moscas zunindo de um lado para outro. Borboletas, mariposas e lagartas e outras criaturas vivendo em aparente  harmonia,  um  lugar  um pouco hostil para outras criaturas, mas muito confortável para seus moradores. A vida na realidade era  um pouco breve, principalmente para os menores e  mais desafortunados, mas mesmo assim era muito boa.

A princesa Nayara queria se casar, mas nenhum pretendente   a despertava para o amor. Sabia de suas obrigações para com o reino e como as coisas funcionavam. Se em breve não encontrasse um príncipe para se comprometer, seus pais escolheriam alguém   e teria que se resignar. Era um pequeno  preço a pagar  para uma vida poupada das  preocupações mais mundanas.

Assim, procurou uma velha feiticeira no reino para pedir aconselhamento e quem sabe uma solução. Explicou que nenhum dos princípes disponíveis nos reinos vizinhos lhe agradavam.  Os mais interessantes, de fato, já eram comprometidos.

A velha feiticeira  concedeu um encanto a Nayara, ela poderia escolher uma criatura da floresta e um beijo transformaria a  criatura no princípe que ela tanto desejava.

A jovem princesa achou que sua busca seria fácil, mas não foi.  As criaturas da floresta sentiam o cheiro do encantamento da velha bruxa ao redor dela e fugiam desesperadamente. Todos os dias saía pela floresta, mas não conseguia chegar perto de  nenhum ser vivo.
Cansada, após caminhar muito numa tarde no fim do  outono  ,  procurando por um bichinho que ela tivesse coragem de beijar e que permitisse que ela se aproximasse, chegou ao brejo, deitou-se  na relva e cochilou.
Sapo Rei ficou curioso e aproximou-se da humana, chegou bem perto de seu rosto,  Nayara abriu os olhos, entendeu o que estava acontecendo e não perdeu a oportunidade, deu lhe um beijo, rápido, atrapalhado, violento  e eficaz.
Assim, Sapo Rei foi transformado em um princípe encantado. Entretanto, os traços anfíbios de nascença não foram apagados. O novo humano tinha cabelos ralos, olhos grandes e uma língua comprida, nariz e orelhas pequenas. Braços e pernas cumpridos e finos. Embora fosse magro, tinha uma bochecha grande e uma barriga saliente.  As más línguas diriam depois que o futuro  consorte era feio como um sapo.  Nayara não deu importância aos pequenos defeitos, estava tão feliz que o feitiço dera certo,  achou-o lindo, já estava também apaixonada pelo seu novo namorado. Levou-o ao castelo e apresentou-o  a sua família.
Ante a necessidade de ter  um nome que soasse humano,  Sapo Rei pediu para ser chamado de Sappus Hex. As primeiras semanas foram muito interessantes. Era uma delícia conhecer  o mundo dos humanos, com suas roupas suntuosas, com a sua linguagem elaborada e o mais interessante de tudo, sua comida, farta e deliciosa, com uma grande nuance de sabores e aromas.
Sapux Hex jamais tinha feito uma grande jornada em sua vida, nunca tinha se distanciado das águas em que nascera e estava vivendo uma nova vida encantada.
Passadas as semanas iniciais, cheias de novidades e deslumbramentos, Sappus  não conseguia entender a complexidade da vida humana.
Tanta engenhosidade no domínio de inúmeras técnicas  demonstrava o intelecto superior dos homens: edificações, estradas, agricultura, navegação, escrita, música,  poesia,etc.
De outro lado, não conseguia ver esta inteligência toda nas soluções dos pequenos problemas do dia a dia.
Não entendia por que tinha que usar roupas e sapato desconfortáveis. Sorrir para pessoas que não gostavam dele, acordar e dormir em horários estabelecidos por outras pessoas e que não representavam as verdadeiras necessidades dele. A própria comida que deveria ser fonte de força e prazer, era fonte de contradições, críticas e controvérsias. Nunca podia comer o que queria, na hora que queria e na quantidade que queria.
As relações com as outras pessoas eram mais complicadas ainda, havia regras sobre o que dizer e o que não poderia dizer que o deixavam  confuso. Tinha a impressão que falar exatamente o que estava pensando era errado e inadequado.  As pessoas pareciam mentir frequentemente, seja por necessidade, por obrigação, por maldade, por suposta bondade, por hábito  ou até para conseguir alguma coisa de volta.
A doce Nayara era sua companheira de todas as horas, ela realmente gostava dele, cuidava dele, servia como amiga e o guiava   em toda esta nova jornada. E ele retribuia todos estes cuidados e todas as maravilhas da nova vida  com uma sincera gratidão e aos poucos, com   amor.
Sappus Hex dormia em uma cama de príncipe, fazia as refeições de um príncipe, passeava como um príncipe e cumpria as obrigações de um príncipe. Era namorado de uma princesa em uma corte que lhe respeitava.  Mas não estava feliz, tinha saudades de coisas simples da vida, do seu brejo, de suas moscas, dos pés descalços, da nudez e da água fria. Tinha saudades de ser quem ele era de verdade.
O amor que compartilhava com Nayara era verdadeiro, mas ele não era uma pessoa de verdade, era apenas um sapo travestido de gente  por um ato  alheio a sua vontade. Por dentro, ele sempre foi  e continuava sendo um sapo e o que era pior (ou melhor), ele queria mesmo era ser um sapo. O amor era uma coisa  muito boa, mas, para ele, não estava acima de todas coisas, o amor não podia estar acima do ser  que ele realmente era.
Numa manhã no começo da primavera, quando os dias frios já tinham ido  embora,  pediu que Nayara o acompanhasse até o brejo, sentaram-se na relva onde havia ocorrido o primeiro beijo que o enfeitiçou, abriu seu coração para sua amada e disse que precisa voltar para onde tinha partido.  Devolveu o beijo  que tinha recebido, desfazendo o encanto que jamais tinha pedido e voltou a ser o Sapo Rei. Melhor reinar em um brejo, do que principar em um castelo.
Nayara ficou impressionada, nunca imaginou que alguém poderia  abrir mão da vida da corte por qualquer outro motivo. Procurou a velha feiticeira e pediu para ser transformada em um sapo. A velha sorriu de forma enigmática, jamais alguém havia lhe pedido para ser amaldiçoado voluntariamente e realizou  o desejo da jovem princesa.
Assim, Nayara tornou-se a Sapa Rainha do Brejo. Junto ao seu Sapo Rei, teve  uma vida longa e feliz, uma prole imensa que eles não precisaram amar ou cuidar por que seus filhos já nasceram independentes e donos do próprio oríficio nasal. Mesmo assim eram felizes pois tinham certeza que tinham cumprido uma importante missão.
Sapa Rainha  surpreendeu-se ao encontrar a felicidade no brejo, tão longe dos confortos e obrigações que vivia na Corte.
Viveram juntos por muitas estações do ano. Certa vez, um Tinguaçu matou e comeu  o Sapo Rei. A Sapa Rainha ficou desolada por um tempo , mas logo depois encontrou um novo companheiro que jamais substituiu seu amado, mas consolou seu coração frio até o fim dos seus dias.  Jamais olhara   para trás e nem se arrependera de suas escolhas.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Narciso High-Tech



Narciso era filho de Cefiso e Liríope. Ao nascer, seus pais consultaram a  vidente Tirésias para saber o futuro e quem sabe  buscar alguma orientação para sua educação.

Tirésias revelou ao casal que seu filho teria uma boa vida desde que ficasse longe  da internet.


Narciso era um menino lindo e uma criança feliz.  Por algum tempo, os pais  até pensaram  seguir   o conselho da vidente. As pessoas podem até acreditar que uma vidente acertará seu futuro, mas  deixar uma vidente dar palpite na educação do próprio filho, já é  demais. Tais pensamentos não se tornaram ações concretas.


Passados alguns anos,  Narciso ganhou seu primeiro smatphone e ficou deslumbrado.

As palavras da vidente, tanto tempo atrás haviam se perdido; de outro lado, o mundo se tornara muito mais complexo e muito dependente da tecnologia. Quase ninguém escapa das coisas próprias da era em que vive.

Narciso  submergiu  naquele mundo rapidamente. Abriu uma conta no Facebook e  embora já estivesse acostumado com a própria beleza, a reação das pessoas às suas fotos funcionou como um clique dentro de sua cabeça. Sentimentos  dormentes despertaram naquele dia. Uma sensação completamente nova lhe encheu de alegria e ansiedade.

Primeiro,  recebeu elogios de avós e tias, depois de amigas e conhecidas. E  achou aquilo muito bom.
Não se contentou apenas com o Facebook, explorou  ainda mais aquele pequeno mundo que cabia em uma caixinha: Whatsapp, Instagram, Twitter, Reddit, Picasa, Tinder, etc ...

E assim, começou a passar boa parte do seu tempo, colocando fotos suas com vários sorrisos, biquinhos,   poses  e roupas.  Passava  horas olhando para a pequena telinha, esperando a reação das pessoas.

Aos poucos, sua audiência enjoou e não lhe dava a atenção que ele achava que merecia.

Aquilo lhe deixou muito triste e ansioso, mas  resolveu ir a luta. Gostava da atenção e dos elogios que as pessoas lhe dedicavam, queria mais e buscaria mais. Assim,    aumentou suas postagens, estas não se restringiam mais apenas ao seu belo sorriso em seu rosto perfeito. Começou a postar os lugares que frequentava, as comidas que comia, as roupas que comprava, os companheiros dos passeios, as paisagens e até mesmo algumas garotas  e garotos com quem saia, quer dizer, apenas  os mais bonitos e interessantes para falar a verdade.

Um dia  começou a se importar com algumas críticas sobre a superficialidade de quem expõe a própria vida na internet, mas resolveu rapidamente o conflito, começou a pesquisar citações que lhe parecia inteligentes, de autores que nem sabia direito quem eram e as acrescentou em suas postagens.  Destarte, além de bonito, começou a ser reconhecido como uma pessoa culta,  sábia e bem humorada. E continuou a achar aquilo muito bom.

Narciso começou a passar muitas horas do seu tempo livre naquele mundo virtual e passou a ver menos pessoas, conversar com menos gente e fazer menos coisas.

Para ele, era um pequeno preço a se pagar, tinha uma necessidade muito grande de chamar a atenção daqueles que lhe dedicavam alguns cliques e comentários todo dia. Conversar com pessoas no mundo físico era uma coisa que lhe aborrecia, no mundo virtual  podia sempre decidir  qual o assunto que  seria tratado.

Aprendeu a brincar com um editor de imagens. Que coisa maravilhosa, com um pouco de esforço ele conseguiu mudar sua realidade. Conseguiu criar fotos em que estava mais bonito, mais chique e mais bem arrumado.   Fazia postagens  em que aparecia em restaurantes em que   nunca esteve,  em lugares que nunca visitou e com pessoas bonitas e charmosas, as quais   nem sabia quem eram.

Narciso ficava inebriado com o sucesso que havia conquistado nas redes sociais, achava tudo aquilo engraçado, de vez em quando ouvia alguma reflexão sobre perfis falsos na internet, e ficava horrorizado com a falta de ética alheia.

De qualquer modo,  como  dedicava tempo exagerado ao seu alter ego virtual,  preferiu viver de forma mais reclusa e reservada. Não queria que ninguém apontasse as incongruências de sua vida  física com sua vida virtual. Aliás, para ele, a vida virtual era a real, aquela que refletia tudo o que   merecia e tudo que as pessoas deviam saber sobre a verdadeira pessoa que  era.

Sempre ficou incomodado com seus  seguidores, embora não fossem poucos, eram sempre  as mesmas pessoas que lhe davam atenção e comentavam suas postagens.  Achava que seus esforços não eram devidamente reconhecidos, às vezes olhava suas postagens antigas, cheias de mensagens otimistas, bem intencionadas e de bom gosto. E ficava frustrado, queria que toda aquela luz irradiasse para outras vidas, que outras pessoas lhe dissessem bom dia e comentassem suas mensagens alegres.

Certo dia,  ao navegar na internet, descobriu que poderia comprar seguidores. Sim, com apenas um cartão de crédito e algumas centenas de reais poderia encher suas páginas nas redes sociais de seguidores, de um dia para o outro.

Ficou encantado, Narciso gastou uma pequena fortuna, mas amanheceu com milhares de amigos, e aquilo lhe encheu de profunda alegria e satisfação. Finalmente, quem visitasse suas páginas descobriria como ele era verdadeiramente amado.

E fez tudo isto por amor. Ele queria ser amado, queria ser elogiado, queria ser reconhecido, queria cliques e likes  e finalmente depois de tanto trabalho,  trabalho duro em que tinha investido tempo,   dinheiro e paciência,   estava conseguindo o reconhecimento que ele tanto sonhava.

Sonhava com aquilo obsessivamente: dedos grandes ou pequenos, curtos ou  cumpridos, lisos ou enrugados, macios ou calejados, secos ou suados  em telas pequenas ou grandes, baratas ou caras, reafirmando o que   sempre soube, que era bonito, bom, justo, engraçado e inteligente e que  merecia tudo de bom que tinha e que o universo lhe deveria dar lhe muito mais. Todos deveriam  reconhecer  como   era um cara legal, que deveriam amá-lo cada vez mais, mais até mesmo do que todas as outras pessoas que conhecia.

Ás vezes, Narciso pensava que deveria fazer outras coisas, mas não conseguia tirar os olhos daquelas telas e daqueles contadores. Narciso queria sempre mais. E com avareza, Narciso contava e recontava diariamente,  seus cliques, seus likes  e seu número de seguidores.

E esta foi a Não Vida que Narciso escolheu para si, esta foi a Não Vida que Narciso teve, e esta foi a  Não Pessoa que Narciso se apaixonou, aquela Não Pessoa sempre bela,  feliz, rica, altruísta,  cheia de amigos, sorrindo, com uma bela mensagem para todas as ocasiões... Era apaixonado por aquele Não Ser que   havia criado e que merecia toda a dedicação que ele pudesse dar.

E naquele lago feito de códigos binários  disfarçado como  uma telinha brilhante, afogou-se... E foi ali, que ele perdeu toda a sua vida em um Não Viver... E provavelmente, morreu sem perceber que não tinha vivido.  E dali, nenhuma Flor surgiu.

sábado, 11 de maio de 2019

A Pedra





Era uma vez uma fada da floresta que sonhava tornar-se uma Fada Madrinha. Em seus sonhos, ser uma Fada Madrinha é a melhor coisa que lhe poderia acontecer. Ela poderia ter uma afilhada, alguém que ela poderia abençoar e encher de alegrias. E toda a alegria que ela depositasse em sua afilhada a encheria de amor. Toda iluminação naquela vida retornaria para ela e a faria mais feliz ainda. Por um momento, alguma coisa lhe pareceu errada nesta idéia, mas logo ela afastou estes pensamentos sinistros, o que poderia haver de errado em amar outro ser e enchê-lo de alegrias, presentes e bençãos? 

Assim, a pequena Fada da Floresta afastou este pensamento e continuou sonhando com o dia que se tornaria madrinha. Os anos se passaram e uma Camponesa que colhia frutos na floresta encontrou a Fada, aquele pequeno ser com olhos arregalados e escuros, um queixo triangular, cabelos pretos e asas enormes de borboleta e ansiosa para alguém que lhe desse significado para a sua vida. 

 A Camponesa confessou a pequena fada que estava grávida e que ficaria muito feliz se esta aceitasse ser madrinha de sua criança. E a Pequena Fada ficou jubilada, radiante e aceitou o pedido. Finalmente, não seria apenas um ser mágico da floresta, ela seria um ser mágico com um objetivo, com uma meta, uma missão, finalmente teria alguém para amar e para lhe agradecer, ops, reconhecer toda a sua bondade. 

 Os primeiros anos foram fáceis e felizes, a pequena bebê de olhos claros e bochechas rechonchudas foi nomeada Pietra. Ao nascer, a Fada Madrinha lhe deu um lindo vestidinho azul com muitas flores da floresta estampadas. A Camponesa agradeceu, mas pediu que fosse acrescentado um grande e belo laço no vestido, no que foi prontamente atendido pela madrinha debutante.

 No dia do primeiro ano da pequena Pietra, a Fada Madrinha trouxe um delicioso bolo de mel para sua afilhada, a Camponesa pediu que lhe fosse acrescentado uma cobertura de calda de laranja, no que foi prontamente atendida. 

 E assim, o tempo passou, como costuma acontecer: os dias se arrastavam lentamente, cheios de afazeres e obrigações e os anos corriam rapidamente em um piscar de olhos. Pietra já vivera 14 primaveras e em breve se tornaria uma moça de 15 anos. Sua Fada Madrinha trabalhou arduamente para lhe preparar uma boa festa. 

Mágica Boa. como todas as coisas da vida, exige esforço, dedicação e muita energia. Mágica Boa só parece acontecer em um piscar de olhos para aqueles que não estão prestando atenção de verdade. Para aqueles que ficam sempre deslumbrados com o destino final, mas não prestaram atenção aos percalços que os peregrinos encontraram em seu caminho.  

Semanas antes do grande dia, a Fada Madrinha conversou com sua afilhada para trocar ideias sobre o evento sonhado. Pietra praticamente não gostou de nada do que lhe foi oferecido, exigiu uma festa maior, com mais músicos, mais comida e mais convidados. E assim foi feito. 

Aos 16 anos, Pietra pediu um namorado para sua Fada Madrinha. A Fada Madrinha havia lhe preparado um bom rapaz, honesto, trabalhador, apaixonado e capaz de fazê-la feliz. Pietra não aceitou, tinha que ser nobre, bonito, muito rico e muito obediente. E assim foi feito. 

 Aos 17 anos, seu nobre pretendente começou a construir uma bela casa para que vivessem no futuro. Pietra pediu a intervenção de sua Fada Madrinha, não queria uma casa, queria um grande castelo com muitos cômodos, com móveis luxuosos e uma criadagem enorme. E assim foi feito. 

Aos 18 anos, Pietra ficou noiva do seu pretendente, mas pediu que sua Fada Madrinha providenciasse um anel maior e com mais diamantes para celebrar aquela data. E assim foi feito. 

Aos 19 anos, a Fada Madrinha não estava mais feliz, Os últimos anos tinham sido difíceis, tinha que viver em prol dos desejos de sua afilhada, sua floresta estava cada vez mais descuidada e todo seu poder e mágica era voltado a coisas mundanas, lembrava-se vagamente da alegria que era viver em harmonia com as criaturas e entes que habitavam seu lar e de fazer pequenos atos de bondade que traziam grande alegria para os seres da floresta, sentimento este que ela não dava muita atenção antigamente, mas que estranhamente, estava lhe fazendo falta. 

Pietra veio lhe procurar com seus planos grandiosos para o casamento que finalmente se aproximava, a Fada Madrinha respirou fundo e finalmente entendeu tudo o que estava acontecendo, o que tinha que ser feito e dito: 

 -Menina dos Infernos, Mimada, Ingrata e Sem Limites. Cansei-me de você e deste seu Poço Sem Fundo e Insaciável de Desejos. Vá a Merda!!! 

 Então, transformou sua afilhada em uma Pedra. Sentiu a leveza de finalmente ser livre pela primeira vez na vida, não era mais escrava do sonho de ser Fada Madrinha e não era mais escrava dos desejos de sua protegida e foi ser feliz para sempre, não o sempre das estórias infantis, mas o Sempre que lhe fosse possível. .