quinta-feira, 16 de maio de 2019

Narciso High-Tech



Narciso era filho de Cefiso e Liríope. Ao nascer, seus pais consultaram a  vidente Tirésias para saber o futuro e quem sabe  buscar alguma orientação para sua educação.

Tirésias revelou ao casal que seu filho teria uma boa vida desde que ficasse longe  da internet.


Narciso era um menino lindo e uma criança feliz.  Por algum tempo, os pais  até pensaram  seguir   o conselho da vidente. As pessoas podem até acreditar que uma vidente acertará seu futuro, mas  deixar uma vidente dar palpite na educação do próprio filho, já é  demais. Tais pensamentos não se tornaram ações concretas.


Passados alguns anos,  Narciso ganhou seu primeiro smatphone e ficou deslumbrado.

As palavras da vidente, tanto tempo atrás haviam se perdido; de outro lado, o mundo se tornara muito mais complexo e muito dependente da tecnologia. Quase ninguém escapa das coisas próprias da era em que vive.

Narciso  submergiu  naquele mundo rapidamente. Abriu uma conta no Facebook e  embora já estivesse acostumado com a própria beleza, a reação das pessoas às suas fotos funcionou como um clique dentro de sua cabeça. Sentimentos  dormentes despertaram naquele dia. Uma sensação completamente nova lhe encheu de alegria e ansiedade.

Primeiro,  recebeu elogios de avós e tias, depois de amigas e conhecidas. E  achou aquilo muito bom.
Não se contentou apenas com o Facebook, explorou  ainda mais aquele pequeno mundo que cabia em uma caixinha: Whatsapp, Instagram, Twitter, Reddit, Picasa, Tinder, etc ...

E assim, começou a passar boa parte do seu tempo, colocando fotos suas com vários sorrisos, biquinhos,   poses  e roupas.  Passava  horas olhando para a pequena telinha, esperando a reação das pessoas.

Aos poucos, sua audiência enjoou e não lhe dava a atenção que ele achava que merecia.

Aquilo lhe deixou muito triste e ansioso, mas  resolveu ir a luta. Gostava da atenção e dos elogios que as pessoas lhe dedicavam, queria mais e buscaria mais. Assim,    aumentou suas postagens, estas não se restringiam mais apenas ao seu belo sorriso em seu rosto perfeito. Começou a postar os lugares que frequentava, as comidas que comia, as roupas que comprava, os companheiros dos passeios, as paisagens e até mesmo algumas garotas  e garotos com quem saia, quer dizer, apenas  os mais bonitos e interessantes para falar a verdade.

Um dia  começou a se importar com algumas críticas sobre a superficialidade de quem expõe a própria vida na internet, mas resolveu rapidamente o conflito, começou a pesquisar citações que lhe parecia inteligentes, de autores que nem sabia direito quem eram e as acrescentou em suas postagens.  Destarte, além de bonito, começou a ser reconhecido como uma pessoa culta,  sábia e bem humorada. E continuou a achar aquilo muito bom.

Narciso começou a passar muitas horas do seu tempo livre naquele mundo virtual e passou a ver menos pessoas, conversar com menos gente e fazer menos coisas.

Para ele, era um pequeno preço a se pagar, tinha uma necessidade muito grande de chamar a atenção daqueles que lhe dedicavam alguns cliques e comentários todo dia. Conversar com pessoas no mundo físico era uma coisa que lhe aborrecia, no mundo virtual  podia sempre decidir  qual o assunto que  seria tratado.

Aprendeu a brincar com um editor de imagens. Que coisa maravilhosa, com um pouco de esforço ele conseguiu mudar sua realidade. Conseguiu criar fotos em que estava mais bonito, mais chique e mais bem arrumado.   Fazia postagens  em que aparecia em restaurantes em que   nunca esteve,  em lugares que nunca visitou e com pessoas bonitas e charmosas, as quais   nem sabia quem eram.

Narciso ficava inebriado com o sucesso que havia conquistado nas redes sociais, achava tudo aquilo engraçado, de vez em quando ouvia alguma reflexão sobre perfis falsos na internet, e ficava horrorizado com a falta de ética alheia.

De qualquer modo,  como  dedicava tempo exagerado ao seu alter ego virtual,  preferiu viver de forma mais reclusa e reservada. Não queria que ninguém apontasse as incongruências de sua vida  física com sua vida virtual. Aliás, para ele, a vida virtual era a real, aquela que refletia tudo o que   merecia e tudo que as pessoas deviam saber sobre a verdadeira pessoa que  era.

Sempre ficou incomodado com seus  seguidores, embora não fossem poucos, eram sempre  as mesmas pessoas que lhe davam atenção e comentavam suas postagens.  Achava que seus esforços não eram devidamente reconhecidos, às vezes olhava suas postagens antigas, cheias de mensagens otimistas, bem intencionadas e de bom gosto. E ficava frustrado, queria que toda aquela luz irradiasse para outras vidas, que outras pessoas lhe dissessem bom dia e comentassem suas mensagens alegres.

Certo dia,  ao navegar na internet, descobriu que poderia comprar seguidores. Sim, com apenas um cartão de crédito e algumas centenas de reais poderia encher suas páginas nas redes sociais de seguidores, de um dia para o outro.

Ficou encantado, Narciso gastou uma pequena fortuna, mas amanheceu com milhares de amigos, e aquilo lhe encheu de profunda alegria e satisfação. Finalmente, quem visitasse suas páginas descobriria como ele era verdadeiramente amado.

E fez tudo isto por amor. Ele queria ser amado, queria ser elogiado, queria ser reconhecido, queria cliques e likes  e finalmente depois de tanto trabalho,  trabalho duro em que tinha investido tempo,   dinheiro e paciência,   estava conseguindo o reconhecimento que ele tanto sonhava.

Sonhava com aquilo obsessivamente: dedos grandes ou pequenos, curtos ou  cumpridos, lisos ou enrugados, macios ou calejados, secos ou suados  em telas pequenas ou grandes, baratas ou caras, reafirmando o que   sempre soube, que era bonito, bom, justo, engraçado e inteligente e que  merecia tudo de bom que tinha e que o universo lhe deveria dar lhe muito mais. Todos deveriam  reconhecer  como   era um cara legal, que deveriam amá-lo cada vez mais, mais até mesmo do que todas as outras pessoas que conhecia.

Ás vezes, Narciso pensava que deveria fazer outras coisas, mas não conseguia tirar os olhos daquelas telas e daqueles contadores. Narciso queria sempre mais. E com avareza, Narciso contava e recontava diariamente,  seus cliques, seus likes  e seu número de seguidores.

E esta foi a Não Vida que Narciso escolheu para si, esta foi a Não Vida que Narciso teve, e esta foi a  Não Pessoa que Narciso se apaixonou, aquela Não Pessoa sempre bela,  feliz, rica, altruísta,  cheia de amigos, sorrindo, com uma bela mensagem para todas as ocasiões... Era apaixonado por aquele Não Ser que   havia criado e que merecia toda a dedicação que ele pudesse dar.

E naquele lago feito de códigos binários  disfarçado como  uma telinha brilhante, afogou-se... E foi ali, que ele perdeu toda a sua vida em um Não Viver... E provavelmente, morreu sem perceber que não tinha vivido.  E dali, nenhuma Flor surgiu.

Um comentário:

Contando história disse...

Muito bom,que conto gostoso e questionador,da relação modernidade e mundo real, parabéns escritora.