sábado, 21 de março de 2020

Manual do Luto Infantil

Há poucos meses perdi minha companheira que veio a falecer por causa de complicações pós cirurgia bariátrica, assim tive que assumir totalmente a responsabilidade pela criação de minhas filhas de 10 e 7 anos. Recentemente, recebi a visita de um prestador de serviços na minha casa que me contou que sua irmã está passando por situação semelhante.

A partir da conversa com ele, acabei tendo a ideia de formular um pequeno manual com minha opinião sobre o assunto a partir da minha vivência. Estas ideias não são exatamente minhas, elas surgiram a partir da contribuição e da solidariedade de várias pessoas que formaram uma pequena rede de apoio tanto material, como afetivo e intelectual que me permitiram atravessar estes meses de grande dificuldade. Deixo de citar nomes para não esquecer ninguém, mas se você fez parte disto, fica aqui meu agradecimento.



As primeiras recomendações são para o cuidador principal da criança, seja o pai ou a mãe que ficaram sozinhos ou para a pessoa que vai ter que receber a(s) criança(s) órfã(s), fazendo analogia com as recomendações de emergência de um avião, você primeiro deve se cuidar (colocar sua máscara de oxigênio), para assim, em segurança ter condições de cuidar da criança (colocar a máscara dela). Lógico que a questão é complexa, muitas coisas têm que ser feitas simultaneamente, mas tudo bem, aos poucos as coisas se ajeitam:



01 – Tenha Fé e ensine suas crianças a terem também – você não precisa ser forte e acertar todos os dias, lógico que você está passando por um momento muito difícil, talvez o momento mais difícil da sua vida, mas procure ter Fé, não falo apenas em Deus (Acreditar que há um Ser Superior, que te ama e tem um plano para você e que Ele está no controle pode te ajudar também, na hipótese de você ser religioso) mas tenha Fé na sua capacidade de enfrentar os problemas, resolvê-los da melhor forma possível, não precisa que as coisas sejam perfeitas, nunca serão, acredite que você pode conseguir e que suas crianças podem crescer para serem pessoas felizes, saudáveis e bem resolvidas, apesar da grande perda que sofreram e que você tem condições e merece reconstruir a sua vida;



02 – Tenha Amor a Vida – apesar da difícil situação que você está vivendo, procure lembrar que dias ensolarados virão, que a vida é muito boa, que tem muita coisa boa para ser vivida, muitos encontros familiares, muitos passeios, muitas reuniões com as pessoas que te fazem felizes, muitas viagens para fazer, muitos cafés e jantares prazerosos. Tenha amor a vida e devagarzinho plante este amor no coração das crianças. Muita gente cresce sem um pai, ou sem a mãe, muitos não têm comida em casa,  têm doenças horríveis, outros são filhos de pais ausentes, displicentes ou abusadores de todos os tipos; Assim a criança que perdeu os pais, apesar do grande vazio que ela terá na vida, poderá crescer como uma pessoa feliz, sim. É duro, mas o mundo não acabou e a vida continua; a pessoa que perdeu um companheiro, também está passando por uma situação muito difícil, mas também poderá devagarzinho, reconstruir uma nova vida, talvez não tão boa como aquela, mas também é possível voltar a viver bem.



03 – Monte o seu grupo de apoio possível – provavelmente, ninguém poderá te ajudar integralmente, você terá que fazer muitas coisas sozinho, mas pense que você está atravessando um deserto, a travessia é sua, mas  alguém pode te oferecer um copo de água; não vai resolver muitas vezes, mas vai deixar tudo mais suave: alguém para cuidar da criança de vez em quando, uma terapia, uma carona, um amigo para dar um pouco de colo, alguém para conversar, toda ajuda vale a pena e é bem vinda. E você está precisando.

04 – Cuide-se - o adulto responsável pela criança tem que trabalhar muito para estar bem e para poder cuidar das crianças (isto inclui – de acordo com seu gosto e sua vontade - ter um tempo para própria vida, passear, ver pessoas , fazer atividades prazerosas, se gostar, ir pra academia, cuidar da alimentação, ter ajuda da família para poder descansar das crianças), viver o luto, mas ter coragem de em algum momento ter planos e metas para o futuro, fazer terapia, aos poucos organizar-se para ter sua vida própria, com autonomia e independência em relação as crianças.



05 – tudo isto pode parecer muito forçado ou exagerado, mas não há pressa, as coisas vão demorar um pouco para melhorar, não precisa acertar e ser forte todos os dias, pode-se trabalhar todas estas questões aos poucos, as coisas vão se assentando dia após dia.



Com relação as crianças:



01 – Falar sobre a morte é uma coisa muito difícil. Culturalmente, costumamos evitar o assunto, como se por pensamento mágico, se eu não falar, não acontecerá. Deve se procurar falar com a criança do modo que a morte é entendida dentro dos valores da família. Procurar falar da maneira mais franca e objetiva possível. Evitar uma abordagem desesperadora – fatídica – demasiadamente triste ou histriônica - que passe para a criança a ideia de que a vida dela também acabou ou que ela não sinta segurança no seu cuidador. No meu caso, preferi assumir que a humanidade não entende muito bem a morte e que cada um entende de um jeito, (discorri sobre as idéias filosóficas e religiosas da morte) e que ninguém tem a resposta correta para isto. Também fiz questão de frisar que a nossa vida continua, que a vida é muito boa e devemos seguir em frente;



02 – Devemos deixar espaço para as crianças falarem o que estão sentindo e o que querem; minha caçula perguntou me se eu a amava de verdade (sim!), por que eu a amava (dei uma lista enorme), pediu para não ser esquecida no restaurante uma vez (tranquilizei-a), perguntou várias vezes se nunca mais veria a mãe (respondi que não a veria de novo), me pediram madrasta (mãe nova – expliquei que isto era muito difícil), quiseram saber o que iria acontecer se eu morresse também (dei uma lista enorme de pessoas que a amavam e respondi que um dos tios certamente cuidaria delas, não iriam para um abrigo); disseram que sentiam falta (eu também), que estavam tristes (eu também), que tinham raiva (eu também), que era injusto (concordei), se era errado ganhar coisas e passeios por que a mãe morreu (respondi que podiam usufruir das coisas por que a perda era grande demais e nunca seria compensada com ganhos pequenos);
03 - as crianças tem que ter todos os sentimentos reconhecidos e validados, ou seja, ensinar que a tristeza, a raiva, a saudades, tudo é normal; falar com honestidade que está sentindo a mesma coisa, chorar junto é importante, é bom evitar o desespero, a falta de fé; precisa saber que não há conserto para a morte, não podemos brigar com ela, apenas aceitação; falar que vai passar ou melhorar nem sempre é uma boa ideia; Não há sentimentos errados, se aconteceram coisas ruins, devemos ter sentimentos de acordo com estes fatos.
03 - as crianças podem ganhar muito amor, carinho, consolação, mimos e passeios;
04 - perder os pais não autoriza a criança a ser irresponsável, ela tem que ter limites, regras, cumprir obrigação na escola, ajudar em casa, tratar todas as pessoas com respeito, mãe, parentes, professores e amigos - tem que ser um pouco duras com ela; uma vida com rotinas e estrutura dá segurança pra criança e liberdade ao adulto; perder o pai ou a mãe não autoriza ninguém a ser tratado como privilegiado pela sociedade, todos tem que trabalhar, estudar, ser honestos. Muita gente prefere dar uma educação permissiva achando que a criança não pode lidar com a perda, pode sim, é difícil, perder um pai ou uma mãe não torna a criança despreparada para a vida, pelo contrário, a perda pode ser uma oportunidade para a criança desenvolver mais autonomia; criar uma criança sem limites, sem obrigações, sem responsabilidades vai torná-la despreparada e problemática; tem que ter ternura, mas tem que ter firmeza também, tem o certo e o errado, a criança pode receber os valores de sua família e de seus pais;
05 - a perda de um dos genitores não tem reparação, tem que trabalhar a aceitação; tentar compensar a falta de um pai ou de uma mãe é um erro; não tem como compensar, é uma perda enorme, não tem remédio, tem que seguir em frente;
06 - criança é criança, ela não deve ser chamada a assumir responsabilidade dos pai que faltou, o mais velho não é o novo homem da casa; a mais velha não é a mulher da casa; a criança mais velha mesmo que tenha que ajudar a cuidar da casa ou trabalhar para o sustento da família, deve ser respeitada, mas não está preparada para assumir a autoridade ou o papel do genitor falecido perante os outros irmãos, é um fardo pesado demais para todos;
07 - criança é um ser inteligente, se for tratada com honestidade e franqueza, ela vai aprender a confiar no adulto responsável, se não houver dentro de casa, ela vai procurar na rua, e não sabemos quem vai poder orientá-la;

08 - Seja positivo, tenha fé, comece a contar uma história positiva, vamos vencer, a vida é boa, sua mãe  iria  ficar feliz de ver  que nós vencemos, vamos enfrentar juntos, seja honesto, seja trabalhador, estude, respeite a todos, etc....



09 – Procure ajuda especializada; procure bons psicólogos; se houver recomendação, a criança pode ir pra terapia também; a internet tem vários blogs e artigos sobre o assunto. Há livros adultos e infantis sobre o luto. Eu, particularmente, gostei muito do livro e indico : Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar da Adele Faber e Elaine Mazlish, editora Summus; ele não é sobre luto, mas me ajudou e continua ajudando a cuidar da parte emocional das crianças.



Bom, era isto, se você por algum motivo chegou até aqui, espero que este texto seja útil... Qualquer coisa, comente.

Um comentário:

Unknown disse...

Parabéns pelas palavras